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Gestrinona: o que é, para que serve, efeitos colaterais e quando usar

Por Dra. Lorena Lima Amato
Gestrinona: o que é, para que serve, efeitos colaterais e quando usar

Atualizado em junho de 2026 · Revisado pela Dra. Lorena Lima Amato — CRM/SP 153.760 · RQE 65.521 · Endocrinologista e Metabologista (SBEM), com doutorado pela FMUSP e treinamento em Harvard Medical School.

A gestrinona voltou ao debate público com o crescimento dos chips da beleza e dos implantes hormonais. Como endocrinologista, recebo várias dúvidas sobre seus efeitos colaterais, indicações reais e quando ela é — ou não é — uma boa escolha. Este guia reúne, de forma clara e baseada em evidência, tudo o que você precisa saber antes de iniciar ou suspender o tratamento.

O que é a gestrinona?

A gestrinona é um esteroide sintético derivado da 19-nortestosterona (família dos noresteroides), com ação predominantemente antiestrogênica, antiprogestagênica e androgênica fraca. Foi desenvolvida na década de 1980 e historicamente utilizada para o tratamento da endometriose e de miomas uterinos, principalmente em países da Europa e da América Latina. Nos Estados Unidos nunca foi aprovada pelo FDA.

Para que serve a gestrinona?

As indicações com melhor respaldo científico são:

  • Endometriose sintomática — reduz dor pélvica, dispareunia e sangramento ao suprimir o estímulo estrogênico sobre o tecido endometrial ectópico.
  • Miomas uterinos sintomáticos — pode reduzir volume e sangramento em pacientes selecionadas, geralmente como ponte para cirurgia.
  • Sangramento uterino disfuncional refratário — em casos selecionados.

Fora dessas situações, qualquer uso é considerado off-label. O uso da gestrinona em implantes hormonais ("chips") para emagrecimento, ganho de massa muscular, libido ou "rejuvenescimento" não é aprovado pela Anvisa nem recomendado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pelo CFM ou pela Febrasgo.

Como a gestrinona age no organismo

O mecanismo é múltiplo e explica boa parte dos efeitos colaterais:

  • Bloqueio do eixo hipotálamo-hipófise-ovário: reduz LH e FSH, suprimindo a ovulação e a produção de estrogênio.
  • Ação direta nos receptores: liga-se a receptores de progesterona, androgênio e, em menor grau, glicocorticoide.
  • Efeito androgênico: aumenta a testosterona livre e reduz a SHBG, o que potencializa sinais de virilização.
  • Atrofia endometrial: induz amenorreia em boa parte das pacientes, útil no controle da endometriose.

Como é o tratamento e a dose

Para endometriose e miomas, o protocolo clássico é 2,5 mg por via oral, 2 vezes por semana, durante 6 meses. Doses mais altas aumentam efeitos colaterais sem ganho terapêutico claro.

O uso em implante subcutâneo ou em doses diárias contínuas não tem padronização nem respaldo de bula. As doses usadas em "chips" comercializados extrapolam, em geral, várias vezes a dose semanal recomendada — o que explica o aumento expressivo de efeitos androgênicos relatados na prática clínica.

Principais efeitos colaterais da gestrinona

1. Efeitos androgênicos (os mais frequentes)

  • Acne e pele oleosa, mesmo em quem nunca teve.
  • Hirsutismo: pelos grossos em face, queixo, abdome e tórax.
  • Queda de cabelo com padrão masculino (alopecia androgenética).
  • Engrossamento da voz — pode ser irreversível.
  • Aumento do clitóris (clitoromegalia) — pode ser irreversível.

Os efeitos virilizantes mais graves costumam aparecer em doses altas e/ou uso prolongado, como nos chips. A reversibilidade depende do tempo de exposição: voz e clitóris podem não voltar ao normal mesmo após suspensão.

2. Alterações menstruais

  • Amenorreia (parada de menstruar) — esperada e desejada na endometriose.
  • Sangramentos irregulares (spotting), principalmente nos primeiros meses.

3. Efeitos metabólicos e cardiovasculares

  • Pequeno ganho de peso por retenção e por ação anabólica.
  • Piora do perfil lipídico: queda do HDL e aumento do LDL.
  • Resistência à insulina em uso prolongado.
  • Aumento de enzimas hepáticas — risco maior em quem já tem esteatose ou usa outras medicações hepatotóxicas.

4. Efeitos psicológicos e neurológicos

  • Irritabilidade, ansiedade e oscilações de humor.
  • Insônia.
  • Cefaleia.

5. Outros relatos comuns

  • Náuseas e desconforto gástrico no início.
  • Cãibras musculares.
  • Redução do volume mamário.

Contraindicações

  • Gravidez ou suspeita de gravidez (risco de virilização do feto feminino).
  • Amamentação.
  • Doença hepática ativa.
  • Antecedente de trombose venosa profunda, embolia pulmonar, AVC ou infarto.
  • Sangramento vaginal de causa não esclarecida.
  • Câncer hormônio-dependente.
  • Doença cardiovascular grave ou hipertensão não controlada.

Monitoramento durante o uso

Quando indicada por médico, a gestrinona exige reavaliação clínica e laboratorial a cada 3 meses:

  • Avaliação de sinais androgênicos (acne, pelos, voz).
  • Hemograma, transaminases (TGO/TGP), perfil lipídico, glicemia.
  • Função renal e pressão arterial.
  • Dosagens hormonais (testosterona total e livre, SHBG, estradiol) quando há suspeita de excesso.

Gestrinona em "chip da beleza": por que tantos médicos são contrários

Implantes contendo gestrinona, testosterona ou outros andrógenos são vendidos com promessas de emagrecimento, ganho muscular e aumento de libido. As principais entidades médicas brasileiras — SBEM, CFM, Febrasgo e SBC — emitiram pareceres contrários a esse uso por razões claras:

  • Não existe estudo de longo prazo demonstrando segurança nessas doses e formulações.
  • Os benefícios alegados (estética/performance) não são indicações aprovadas.
  • Os efeitos virilizantes podem ser permanentes.
  • Pioram colesterol, fígado e podem aumentar risco cardiovascular.
  • A dose absorvida é imprevisível e não pode ser ajustada após a inserção.

Em consultório, atendo regularmente pacientes lidando com sequelas de chips de gestrinona — voz alterada, clitoromegalia, calvície, acne grave e alterações lipídicas que persistem mesmo meses após a retirada.

Alternativas à gestrinona

Para as indicações ginecológicas reais, há opções com melhor perfil de segurança:

  • Análogos de GnRH (leuprolide, goserelina) para endometriose.
  • Dienogeste — progestagênio com excelente resposta em endometriose e menos efeitos androgênicos.
  • SIU de levonorgestrel (DIU Mirena/Kyleena) — eficaz em sangramentos e adenomiose.
  • Anticoncepcional combinado contínuo, em casos selecionados.
  • Cirurgia (laparoscopia, miomectomia) quando há indicação clínica.

Para emagrecimento, as opções com respaldo científico são mudança de estilo de vida, tratamento médico da obesidade, análogos de GLP-1 (semaglutida, liraglutida) e o agonista duplo GIP/GLP-1 (tirzepatida) — nenhum deles envolve hormônios androgênicos.

Perguntas frequentes sobre gestrinona

1. Gestrinona engorda ou emagrece?
Não é remédio para emagrecer. Pode causar leve ganho de peso por retenção e ação anabólica. Qualquer perda de peso atribuída ao "chip" geralmente vem de aumento de atividade física e mudança alimentar associada — não da gestrinona em si.

2. Gestrinona aumenta a libido?
Pode aumentar em algumas mulheres por elevar a testosterona livre, mas o efeito é variável e vem acompanhado de risco de virilização. Não é tratamento aprovado para baixa libido.

3. Os efeitos colaterais somem quando paro o tratamento?
Os metabólicos (lipídios, fígado, peso) costumam regredir. Acne e queda de cabelo melhoram, mas podem levar meses. Engrossamento da voz e aumento do clitóris podem ser permanentes.

4. Posso engravidar usando gestrinona?
Não. Ela suprime a ovulação na maioria das mulheres, mas não é considerada anticoncepcional confiável. Se houver gravidez durante o uso, há risco de virilização do feto feminino — suspenda e procure seu médico imediatamente.

5. Gestrinona é a mesma coisa que testosterona?
Não. São hormônios diferentes, mas ambos têm ação androgênica. Por isso compartilham efeitos como acne, hirsutismo e queda de cabelo.

6. Posso usar gestrinona em qualquer idade?
Não. O uso é restrito a mulheres em idade reprodutiva com indicação ginecológica clara. Em adolescentes e na pós-menopausa, raramente há indicação.

7. Gestrinona aumenta massa muscular?
Tem efeito anabólico leve, mas insuficiente para justificar uso estético — e com risco alto de efeitos androgênicos graves. Não é recomendada para essa finalidade.

8. Qual exame detecta uso de gestrinona?
Não há dosagem sérica de gestrinona disponível na rotina. O que se observa indiretamente é testosterona total e livre elevadas, SHBG suprimida, estradiol baixo e LH/FSH suprimidos.

9. Plano de saúde cobre o tratamento com gestrinona?
Quando indicada para endometriose ou miomas com prescrição médica e bula, sim. Implantes manipulados para fins estéticos não têm cobertura.

10. Como retirar com segurança um chip de gestrinona?
A retirada é cirúrgica simples, em consultório, sob anestesia local. Depois é importante reavaliação endocrinológica com perfil hormonal, lipídico e hepático.

Quando procurar um endocrinologista

Procure avaliação especializada se você:

  • Está em uso de gestrinona (oral ou implante) e tem dúvidas sobre segurança.
  • Apresentou acne, pelos, queda de cabelo, mudança de voz ou alteração menstrual após iniciar o tratamento.
  • Quer alternativas seguras para endometriose, miomas ou sintomas hormonais.
  • Pensa em emagrecer ou ganhar massa muscular e busca uma estratégia com respaldo científico — sem hormônios androgênicos.

Referências: Parecer CFM 06/2019 sobre implantes hormonais; Posicionamento SBEM sobre modulação hormonal; Diretrizes Febrasgo de endometriose; Bula técnica da gestrinona (Anvisa).

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